18 janeiro, 2011

espera infinda


no oculto do encanto
vago
a sede em prece
coagida por outros lagos

sanidade profanada
minha sombra perambula
na cegueira de tuas ruas

tortuosa reticência
no parêntese entre nós

e as cicatrizes estremecem ardidas
feridas entre os nós
da espera infinda

ultimato do olhar
bala perdida
cortei os cabelos
mudei a tinta

não mais te espero
pra sobra de uma curva
iludida

08 outubro, 2010


Nascera praticamente perfeita. E a vida tratou de lhe proporcionar o necessário e mais um pouco. Seu único infortúnio [e de sua mãe] era que, quando criança, apesar dos eucromáticos olhos azul-piscina, não possuía cílios. Obsessão. Passou a arrancar as bordas das pálpebras de suas bonecas e das bonecas de suas amigas. Compulsão. Não bastasse, surrupiava as pestanas de bonecos nas lojas. Fato incrível, coincidência ou não, começaram a lhe nascer cílios, e quanto mais cílios colecionava, mais cheios e compridos ficavam os seus. Paranóia.

Ela possuía um brilho raro no olhar. Sorria com os olhos. Seduzia os desavisados que a olhassem profundamente naquela imensidão azul. Assim, ele foi pego. Desprevenido. Como se o desejo de atirar-se de um penhasco -- direto ao mar profundamente azul -- fosse maior que tudo, atirou-se. Assim, ele foi pego pelos olhos dela. A resposta veio no segundo encontro. Um perfeito encontro de corpos.

Um desejo assomou-se irrefreadamente aos seus dias. Queria a gravidez mais que tudo. Dias, semanas, meses se passaram e a impaciência que lhe era companheira apareceu como uma goteira em dia de chuva torrencial. Psicose. Querendo muito ser mãe, matou a sua.

04 outubro, 2010

29 setembro, 2010

Noite

couple_by_djbabydyke @deviantart

Há um mundo rarefeito
emergido da tua voz
que passeia no meu íntimo
em eufonia

Súbito vento em cabelos azeviche
mudam a direção cadenciada
na dança de mãos

Colada em tua boca
devoro o todo
sorvo as sobras
e teu perfume
seguro em minhas pétalas
a catarse da vertigem

Em outra dimensão
- desnuda -
sou a lua

Por ser efêmero o gozo
Basta teu olhar
E a noite existe.

28 setembro, 2010


No primeiro ato, as cortinas se abriram e ela admirou a platéia. Tons surdos a abraçaram nos segundos que precederam o beijo. Calmaria. Pareceu-lhe que deus criou o mundo com a mão esquerda e abstraiu o íntimo das ruas em convulsão, ao final do dia. Seguiram-se aplausos, tombados pela tragicofilia coletiva. Paradoxos. Viu-se a própria Carmem [de Bizet]. Todavia, percebeu-se apaixonada. Ar-re-ba-ta-do-ra-men-te. Não era hora para mimeses de encanto. Minutos suspensos. Cerrou os olhos para dedilhar os vapores se esvaindo de sua promessa romântica. Encontrou forças e fechou as cortinas antes do último ato. Virou-se sem olhar pra trás pra retornar ao seu deserto epicuriano.