08 outubro, 2010


Nascera praticamente perfeita. E a vida tratou de lhe proporcionar o necessário e mais um pouco. Seu único infortúnio [e de sua mãe] era que, quando criança, apesar dos eucromáticos olhos azul-piscina, não possuía cílios. Obsessão. Passou a arrancar as bordas das pálpebras de suas bonecas e das bonecas de suas amigas. Compulsão. Não bastasse, surrupiava as pestanas de bonecos nas lojas. Fato incrível, coincidência ou não, começaram a lhe nascer cílios, e quanto mais cílios colecionava, mais cheios e compridos ficavam os seus. Paranóia.

Ela possuía um brilho raro no olhar. Sorria com os olhos. Seduzia os desavisados que a olhassem profundamente naquela imensidão azul. Assim, ele foi pego. Desprevenido. Como se o desejo de atirar-se de um penhasco -- direto ao mar profundamente azul -- fosse maior que tudo, atirou-se. Assim, ele foi pego pelos olhos dela. A resposta veio no segundo encontro. Um perfeito encontro de corpos.

Um desejo assomou-se irrefreadamente aos seus dias. Queria a gravidez mais que tudo. Dias, semanas, meses se passaram e a impaciência que lhe era companheira apareceu como uma goteira em dia de chuva torrencial. Psicose. Querendo muito ser mãe, matou a sua.

Um comentário:

poetamatematico disse...

Caraca!

Isso foi muito bom, direto!

Puxa e esse final surpreendente? Parabéns